Soninha: Agora, quem manda sou eu!
Em um clima descontraído, a vereadora Soninha nos recebeu na Câmara Municipal para um bate-papo. Ela nos contou a experiência de ser vereadora, falou sobre algumas ações do mandato, de sua saída do Partido dos Trabalhadores e do seu atual ânimo na política: a candidatura à prefeitura de São Paulo! E é claro, tivemos que falar um pouco de futebol.
Blog do Petta: Soninha, eu gostaria que você falasse sobre essa experiência de ser vereadora.
Soninha: É muito bom ter essa experiência. Mesmo alguém que sempre se interessou por política como eu e gostava muito de acompanhar a Câmara Municipal - a ponto de já ter pensado em me candidatar e ser vereadora quando eu tava no colégio nos anos 80 - estando aqui, você aprende coisas que você nem sabia que não sabia. É uma experiência que não tem como substituir por outra. Viver isso daqui diariamente é muito transformador. Pelo lado ruim, o que acontece: a pior expectativa que as pessoas têm da política é a da corrupção e desvio de conduta, isso é o que qualquer um pensa. Quando eu disse que seria candidata a vereadora, as pessoas diziam: você vai entrar lá? Naquele antro? Eu falava: olha, se você acha que é um antro, mas um motivo para querer entrar. Mas aqui, você descobre que existe o problema da corrupção, que é gravíssimo, mas não é o único. Um outro problema que você espera que vá ter na política é o confronto de posições antagônicas, muito difíceis de conciliar. E aí, uma das decepções é que tem debate de menos.
BP: E quais foram as principais iniciativas do mandato? O que você poderia destacar?
A gente pensa que a melhor coisa que se possa fazer como vereadora é aprovar um projeto de lei. Vê-lo sendo sancionado e executado. E essa não é a única maneira de interferir. Você pode interferir de vários modos na administração pública. A gente intercedeu junto ao executivo em vários momentos fazendo algumas sugestões pontuais de maior ou menor magnitude e a gente foi atendido. O que pra mim foi uma surpresa boa, porque eu achava que por ter sempre esse confronto entre os dois grandes blocos, governo e oposição, e você estando na oposição, não teria nenhuma maneira de ser atendido. A não ser na marra. A gente pensa muito na pressão e no confronto. Quando eu tentei a persuasão e deu certo, eu fiquei muito feliz. Por exemplo, essa administração do Serra se elegeu fazendo campanha contra o CEU. Eles chamavam o CEU de desperdício de dinheiro e exemplo de má gestão. Eu sempre achei um absurdo essa crítica. CEU não é luxo e não é desperdício de dinheiro. Fui à tribuna, mandei carta, ofício, e-mail, fiz reunião, audiências, trazendo dados, matérias e depoimentos para mostrar de todas as maneiras ao governo que ele estava errado. E eu fiquei exultante da vida quando o governo pediu um levantamento das áreas que a Marta tinha reservado para fazer os CÉUS, porque pretendia retomar o projeto.
Outra coisa que eu tenho participado bastante é da incorporação das bicicletas como meio de locomoção e transporte. Como um instrumento valioso de mobilidade urbana na cidade de São Paulo. Então a gente está batalhando por essa idéia. Tem mil resistências...
BP: Teve uma vitória agora que é pequena, mas simbólica e importante, que é a questão de poder usar a bicicleta no metrô no final de semana...
E apesar de ser administração estadual, eu fui lá.
BP: Até dizem que foi uma idéia sua...
Não foi uma idéia só minha. Quantas pessoas há tanto tempo pedem para deixar entrar com bicicleta no metrô? Mas, assim que eu soube quem seria o secretário estadual de transportes, que pra minha sorte, é uma pessoa com quem eu já tinha um contato anterior por ser militante da área do futebol, assim como eu, o procurei imediatamente e falei: que bom! Você vai ser secretário de transportes e eu quero falar muito com você! Aí ele: por exemplo? E eu: bicicleta. Ele: o que tem bicicleta? Bicicleta no metrô, não pode. Não se pode entrar com bicicleta no metrô, a não ser desmontada. Quem desmonta a bicicleta para poder carregar? Tá, vamos estudar. No dia da posse, ele citou isso no discurso de posse: a gente quer melhorar a qualidade no atendimento ao usuário. O metrô é uma maravilha, mas a gente pode melhorar. Um exemplo é a incorporação das bicicletas, que é um compromisso que eu tenho com ela aqui, apontando pra mim.
BP: Até o exemplo que você deu, depois que a sua moto foi roubada e você começou a utilizar a bicicleta como seu principal meio.
Não é o principal não, mas ele está incorporado. A cada dia eu penso na minha agenda do dia seguinte e eu falo: amanhã, como é que eu vou? Amanhã eu vou de metrô, amanhã de bicicleta. Então é muito legal, o teu olhar muda. Você olha para a Avenida Liberdade, por exemplo, e você descobre que na Avenida Liberdade cabe uma ciclovia perfeitamente ou uma ciclo-faixa. Por quê? Você tem duas pistas de rolamento de automóvel, uma calçada bem larga, estacionamento permitido e ainda sobra um espaço folgado pra bicicleta. Você só presta atenção, dessa maneira, quando você está pedalando e vê onde cabe e não cabe. Onde é seguro e onde é perigoso. Você não precisa fazer uma ciclovia na 23 de Maio. Você pode fazer na Avenida Liberdade que é há um quarteirão dali e cumprir o mesmo efeito.
BP: E a sua idéia é levar tudo isso para o executivo?
Agora, quem manda sou eu... (risos)
BP: Você quer a caneta?
Podem vir me persuadir...
BP: Fala um pouco disso, da sua candidatura a prefeita...
A cronologia é a seguinte: sempre pensei em um dia entrar pra política. Ser vereadora, que legal ser prefeita. Com o passar do tempo, eu pensava nisso, mas era tão palpável pra mim, quanto pensar em morar três anos no Nepal. Eu adoraria, mas não achava que era viável. Por vários motivos. Porque para você constituir uma candidatura majoritária dentro de um partido, você precisa ser mais capaz de fazer concessões do que eu sou capaz de fazer. É óbvio que você precisa fazer concessões na vida, na política, na sociedade. Mas eu achava que pra você ser o candidato majoritário do partido, você tinha que fazer muito mais concessões do que eu consigo, do que eu agüento. E aí, eu deixava isso como um sonho. Há certo momento eu decidi que não ia ter mesmo um segundo mandato como vereadora. Nunca foi a idéia original e eu confirmei que não teria um segundo mandato como vereadora. Previa que eu ia sair do PT. Por ter atingido um limite no grau de concessões. E que eu não ia pra partido nenhum, porque eu não pretendia disputar nenhum cargo eletivo. Continuar a serviço da administração pública sim, onde eu pudesse ser útil. Mas, não disputando cargo eletivo. Até que o PPS me procurou, depois de muitas conversas em que eu dizia que não, não quero ser vereadora, não quero mais disputar um mandato como vereadora, a gente chegou a esse ponto. E ser candidata ao executivo? Eu falei: vocês estão falando sério? Eles estavam e eu falei: então está bom, eu topo. E aí, claro, continua a ser um sonho. Não como morar três anos no Nepal, talvez uns três meses... (risos)....o que também não vai rolar. Mas, a candidatura em si, é um tesão de planejar e elaborar. Não a campanha eleitoral, a candidatura. A construção de uma proposta de governo. Fazia tempo que eu não me animava com alguma coisa na política, essa construção.
BP: E como que está a relação com o PT? A última notícia que eu tive é que o PT iria se utilizar da decisão do STF. Como você vê isso?
Eu to na expectativa dessa ação judicial...
BP: Você esperava essa decisão do PT?
Esperava. Não me surpreendeu não. A partir do momento que o Supremo [Tribunal Federal] confirmou esse entendimento, que o mandato é do partido e não do parlamentar, não foi surpreendente. Não acho que foi perseguição pessoal. Acho que é o partido exercendo o direito que lhe foi garantido. Ao mesmo tempo, em que eu também tenho um direito garantido. No entendimento do Supremo, a principio o mandato é do partido, mas nem toda mudança de partido deve ter como resultado a perda do mandato. Existem mudanças justificadas. Que podem ser justificadas. Então é isso, que está em questão. Os dois lados têm direitos. O do PT de reivindicar o meu lugar na Câmara e o meu de demonstrar que a minha saída do Partido tem justificativas que eu posso apresentar na justiça. Estamos reunindo todas as divergências, todos os conflitos, todas as disparidades, tudo que eu considero incoerência da atuação do PT aqui na Câmara Municipal nos últimos dois anos, para demonstrar porque sai do PT e porque que eu sairia do PT de qualquer jeito, em algum momento. O que delimitou no calendário e por isso, tinha que ser agora, é o que a lei exige de mim para ser candidata.
BP: Por último, falar de futebol. Eu quero que você fale um pouco sobre o fato do Brasil sediar a Copa de 2014. O que isso pode significar? Essa é a política que deveria estar na ordem do dia?
Então, eu não acho que o fato de trazer a Copa significa que o governo vai deixar de investir em outras coisas. Esse discurso é muito perigoso e sempre tem. Quando você fala de esporte, cultura, sempre tem alguém pra dizer que esse dinheiro devia ir pra saúde. Não, tem que ter espaço pra tudo, inclusive para um evento esportivo desse porte. O que a gente teme sempre? Em obras desse vulto, num investimento dessa magnitude, a gente teme sempre desvio. Teme a falta de planejamento, a falta de eficiência e a falta de controle. A falta de transparência. E a gente tem motivo pra temer tanto da parte do setor público, tanto da parte do setor privado envolvido. Empreiteiras de grandes obras e os gestores do futebol profissional no Brasil, que nos dão mil motivos para desconfiança. Tanto quanto a lisura e a competência. Mas, você não pode privar um país de uma Copa do Mundo por causa disso. E sim, traz benefícios imediatos e em médio prazo para a economia, para a auto-estima.
BP: Você acha que o Palmeiras chega a Libertadores? (A entrevista foi realizada antes da última rodada e eu ainda tinha esperanças)
Soninha: Eu acho não... (risos)...tenho tendências ao pessimismo em tudo que me diz respeito diretamente... (Ela estava certa)
enviada por Gustavo Petta
05/09/2007 20:42
ENTREVISTA COM SUPLICY
O Blog do Petta foi recebido, sábado, na casa do Senador Eduardo Suplicy para um almoço e boa conversa. Fomos eu e Renato, colaborador do Blog. Espontâneo. Talvez esta seja a sua melhor definição. Quando chegamos à sua residência, modesta e aconchegante, nosso entrevistado estava envolto com a nova denúncia contra o Senador Renan Calheiros feita pela Revista Época. Aguardava um telefonema para emitir a sua opinião a uma jornalista. Passamos à sala. Esperávamos Mônica Dallari para o almoço. Clima informal para uma entrevista de temas espinhosos.
Partido dos Trabalhadores
O Senador havia chegado do 3º Congresso do PT e aproveitamos para alfinetar sobre o futuro do Partido. Entusiasmado, Suplicy nos fez uma síntese da fala do Presidente Lula aos mais de 1000 delegados presentes, marcando os avanços do governo.
Como é que um partido que tem 27 anos de história elegeu por duas vezes o Presidente da República? E vem conseguindo avanços importantes, conseguindo compatibilizar o crescimento da economia com investimentos sociais?, disse o senador, referindo-se ao discurso de Lula. Disse ainda que, falando da dificuldade do povo em se alimentar, o presidente defendeu o Bolsa Família e relatou os avanços na reforma agrária e na educação. Referiu-se também à abertura do Palácio do Planalto não apenas aos reis, príncipes, mas também para os movimentos sociais e à sociedade em geral, falou ainda sobre ética, erros do PT e o julgamento do STF. O Presidente marcou bem, segundo Suplicy, o presente e o futuro do PT.
Eu acho que o PT está muito forte, insistiu o senador. Preparado e forte para enfrentar as próximas eleições, sejam as municipais de 2008, sejam as eleições para Presidente, Governadores e parlamento em 2010, concluiu.
Socialismo petista
E futuro programático? E o Socialismo Petista?, perguntei sobre os debates.
Acredito na construção democrática de uma sociedade socialista e este socialismo estará compatibilizando o sistema de mercado com instrumentos de política econômica que possam contribuir para elevar, cada vez mais, o grau de justiça, de eqüidade na sociedade brasileira. Uma eqüidade nos mais diferentes aspectos, baseando-se na convivência daquilo que seja a economia do setor público com a economia do setor privado, respondeu Suplicy.
Citando a China e outras experiências socialistas, ele ponderou quais são os instrumentos que podemos utilizar de políticas públicas, políticas econômicas, que venham a compatibilizar esses objetivos: crescimento da economia, desenvolvimento econômico e social, eqüidade, justiça na distribuição da renda e da riqueza?. Os principais instrumentos, para ele, são os valores e as atitudes. Precisamos levar em consideração os valores que não sejam simplesmente a busca do interesse próprio, de se levar vantagem em tudo, prosseguiu. Para ele, é necessário trabalhar em busca da ética, verdade, da justiça, da fraternidade, da solidariedade, da liberdade e da democracia.
O almoço em si
Ele nos contava a sua visita a Bangladesh e sobre o Grameen Bank, quando o celular toca: caso Renan. Em seguida, chega Mônica Dallari. É hora do almoço. O telefone, agora o da casa, toca. Dona Dulce, a cozinheira de mãos cheias, diz: Não vou atender, deve ser ela. Quem é ela? Mônica Dallari explica: Fãs do Supla. A partir daí, o Senador passa a contar a história da moça que acampou em frente à casa. Só saio se o Supla vier falar comigo. O resumo da ópera é que a moça, de classe média, ficou semanas, entre idas e vindas, morando na praça em frente à casa de Suplicy. O Senador teve muito trabalho. Até rodou de carro, um domingo inteiro, para encontrar um local adequado para a moça. Esse é muito chinfrim, dizia ela, se diverte o Senador ao contar a história. Tudo sob o olhar atento de Mônica. Quando a conversa começa a girar em torno do Senado, está na hora do café e de retomar a entrevista.
Mensalão e julgamento do STF
Eu acho que é uma decisão, primeiro, que deve ser respeitada, refere-se à decisão do Supremo. Preocupado com a questão e com os atos dos homens públicos, o Senador vê que é necessário o pleno direito de defesa e que não quer fazer um pré-julgamento de qualquer um deles.
Caso Renan
Ao falar do caso Renan Calheiros, Suplicy lembra que sempre teve uma boa relação com o Presidente do Senado e até votou nele na eleição da mesa diretora. Sempre tive um procedimento de cortesia e de respeito em todas as ocasiões que, como senador, dialoguei com ele. Entretanto, passa a ser mais enfático sobre o caso: obviamente, esses episódios, significaram muito para nós, senadores, pois nada de agradável tem você precisar estar analisando e julgando um companheiro seu.
Ele relembrou o caso do ex-senador Luís Estevam e afirmou que, no caso Renan, existiu um aspecto de natureza privada, familiar, referente a ele ter tido uma relação com outra pessoa, fora do casamento. Tido uma filha. Isso para ele não constituiu a quebra de decoro, mas à medida que para realizar os pagamentos para a filha e o fato de ser uma quantia significativa, que poderia ou não estar de acordo com os seus rendimentos, é que, diante da denúncia, duvidou-se se ele teria ou não recursos para fazer aqueles pagamentos.
Após um breve histórico da evolução do caso, passando pela análise dos relatórios e o uso indevido, por Renan, da verba indenizatória do gabinete (cerca de 15 mil para despesas de trabalho), Suplicy dispara: o presidente do Senado deveria ser o primeiro a dizer aos senadores que verba indenizatória não é para gastos pessoais.
Sobre o empréstimo da locadora de automóveis Costa Dourada, que não foi declarado à Receita Federal como reza a lei, Suplicy diz querer perguntar a Calheiros: eu gostaria de ouvir do senador Renan Calheiros - pois na lei não há a possibilidade de um contribuinte estar dizendo que, por razões de discrição e foro íntimo, ele vai deixar de declarar seus rendimentos -, como é que ele vê isso, por ser o presidente do Senado?
Sobre a possibilidade de cassação de Renan, Suplicy tem dúvidas. Sinceramente eu não sei. Que dez Senadores tenham votado no Conselho de Ética pelo voto aberto e cinco que seja fechado, pode ser uma indicação do que vá ocorrer no Conselho de Ética (hoje por 11 a 4, incluindo o voto favorável de Suplicy, o relatório que pede a cassação foi aprovado no Conselho), mas o que vai ocorrer no plenário, onde o voto será secreto, como manda a Constituição, vamos ver.
Prefeitura de São Paulo
Saindo do caso Renan para a disputa eleitoral de 2008, perguntamos ao Suplicy, eleito no ano passado, para o seu 3º mandato com 47% dos votos válidos, sobre a possibilidade de sua candidatura à Prefeitura de São Paulo. Ele relembrou a sua candidatura em 1991, falou dos seus projetos, com muito destaque para o Renda Básica de Cidadania, e disparou: Vamos supor que houvesse da parte do PT e da população de São Paulo, a idéia de fazer de São Paulo, a experiência pioneira de uma renda básica de cidadania, ao longo dos próximos 4 anos, para ajudar ao Presidente Lula a instituí-la no Brasil todo. Fazer de São Paulo uma experiência pioneira. Se houver essa vontade, pode contar comigo.
Renda Básica de Cidadania
Se tem um tema que o Senador gosta de falar, esse tema é o seu projeto de lei, sancionado pelo Presidente Lula em 2005, Renda Básica de Cidadania. Ao longo de toda a entrevista, Suplicy sempre procurou meios de falar sobre ele. Ao final, falou longamente sobre o projeto. De Tomas Paine, primeiro a pensar na idéia pra ele, ao Estado do Alasca, primeiro lugar a aplicar o projeto. O senador acredita que esse projeto pode alterar de vez a cara do Brasil e do mundo. Por isso a sua idéia de ir ao Iraque, a conversa que já teve com o Presidente Hugo Chavéz e a força que faz para vê-lo funcionando no Brasil. (Recomendo a leitura do seu livro lançado pela L&PM POCKET: Renda Básica de Cidadania: A Resposta dada pelo Vento. 2006.)
Ficamos, cerca de 4 horas, na casa do senador. Estavam, Dona Dulce, uma mulher que faz uma lasanha muito especial, Flávia Rolim de Andrade, assessora de longa data de Suplicy, e Mônica Dallari. Fomos embora e deixamos Eduardo Suplicy se preparando para ir ao cinema com Mônica. Iriam ver Santiago, o novo filme de João Moreira Salles.
enviada por Gustavo Petta
15/08/2007 19:11
TEMPORÃO: "O ABORTO É COBERTO COM UM VÉU DE HIPOCRISIA"

Em entrevista exclusiva para o Blog, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, fala sobre o conservadorismo em torno do aborto, se declara a favor de um plebiscito sobre o tema e quer ampliar também o debate sobre as drogas no Brasil. Além disso, declara que a UNE tem um importante papel para a ampliação dessas discussões.
Petta: Ministro, qual o significado de sua ida à posse da UNE?
Min. Temporão: Eu tenho dito que o ministério deve trabalhar no sentido de trazer a sociedade para o debate. Então, não só pela relevância da UNE como ator político, mas também por entender que grande parte da agenda política que eu trago para o ministério tem o jovem como interlocutor privilegiado. São esses dois motivos. A sociedade tem que se apropriar dessas questões. Tem que construir uma consciência sobre os temas de saúde que permitam que a sociedade vá amadurecendo uma visão e mudando padrões culturais. Mudando a percepção sobre as grandes questões, que são polêmicas: aborto, planejamento familiar, consumo de drogas. Por isso eu fiz questão de estar presente na posse da nova diretoria.
P: Essa aproximação pode resultar em que tipos de atividades e de projetos?
MT: Eu acho que a UNE é fundamental, por sua capilaridade. A representatividade dessa diretoria e das últimas diretorias da UNE, dada uma forte interface, não só com a ação de formação de pessoal, de estudantes das ciências da saúde, da área da saúde, e também a capilaridade que a UNE tem, me parece muito interessante pensar propostas de parceria que levem para o conjunto dos estudantes essas grandes questões. Vamos pensar de que maneira essas estratégias podem se dar. De um lado, o ministério tem muita informação, tem muito conhecimento, muito material, muito conhecimento acumulado. Por outro, a gente precisa exatamente dessa capilaridade. Chegar junto a todos os estudantes e passar uma reflexão. Não é nem passar e nem há nenhuma atitude prescritiva nisso. Pelo contrário, acho que é fazer com que os estudantes se apossem de informação e possam tomar suas decisões. Isso é o mais importante.
P: E a idéia da entidade fazer um plebiscito nas universidades sobre a questão do aborto?
MT: Fundamental. Esse é um tema que eu tenho sempre falado, me referindo como um tema coberto com um véu de hipocrisia. É uma questão de saúde pública grave, que interessa a todas as mulheres e aos homens, mas que, por "n" questões - pelo grande conservadorismo, principalmente de algumas igrejas - vem sendo colocada no campo da criminalização. Como se fosse razoável penalizar ou punir mulheres que, numa situação muitas vezes dramática e de profunda solidão, sejam colocadas em situação de sofrimento, além do que já sofreram quando tiveram que decidir dar continuidade a uma gravidez ou não. Essa é uma questão muito importante do ponto de vista político, muito importante do ponto de vista político de saúde pública e acho que a UNE, assumindo como uma bandeira de discussão e debate entre os estudantes, trará uma grande contribuição a esse debate nacional.
P: Existe a possibilidade de um plebiscito nacional sobre o tema?
MT: Eu tinha me colocado pessoalmente favorável. É evidente que não há um consenso dentro do governo. O governo, como governo, não discute essa questão. Do ponto de vista prático, está no congresso nacional, existem vários projetos de lei tramitando. Pelo entendimento do governo, cabe agora ao congresso nacional tomar a decisão se essa questão vai ser analisada do ponto de vista de uma lei ordinária ou se o congresso vai convocar uma consulta pública e popular para que esta decisão seja tomada. Eu, pessoalmente, vejo no plebiscito um espaço de debate, de crescimento político em relação a esta questão, que parece salutar. Grupos, por exemplo, ligados ao movimento feminista já têm uma visão diferente e acham que o espaço mais adequado seria o congresso. Acho que agora cabe ao congresso nacional decidir isso.
P: Vários movimentos juvenis, e a própria UNE, defendem a idéia da descriminalização das drogas. Qual a postura e a posição do ministério em relação a isso?
MT: Olha, a posição do governo sempre foi a redução de danos. A gente não tem nenhuma posição, tipo proibição. Este fim de semana, por exemplo, saiu no Globo, uma matéria muito interessante sobre a questão da maconha, com três visões diferentes. Duas delas favoráveis à descriminalização. Uma um pouco em dúvida, e uma delas, inclusive, trazendo muita experiência dos Estados Unidos, do uso da canabis como terapia para determinados casos como glaucoma, dores crônicas e outras questões. Ainda tem também muita hipocrisia em relação a essa questão. Têm hoje drogas legais, como o álcool e o cigarro. São drogas legais que têm um impacto, do ponto de vista da saúde pública, brutal. São milhares de mortes, doenças, sofrimento. E, por outro lado, indústrias muito poderosas que arrecadam bilhões em impostos para a sociedade. Quer dizer, tem uma certa contradição aí. E, de outro lado, uma tentativa de não se colocar em discussão a questão das demais drogas. Eu acho que o saudável para a sociedade é abrir o debate, abrir a discussão. Vamos ouvir a sociedade, vamos ouvir os jovens, vamos ouvir os estudantes, vamos ouvir os trabalhadores, o que a sociedade pensa sobre esta questão para que a gente possa avançar. Então, o que eu defendo é ampliar o debate, ampliar a discussão.
P: Então, por último, qual o recado que você deixa para a juventude?
MT: Meu recado é o seguinte: o Brasil é um país que tem uma população majoritariamente jovem, então a força desta juventude no cenário político é inconteste. O meu recado é: fique informado, participe, escute, fale, leia, reflita, e atue como um ator político fundamental, seja no mundo da educação, seja no mundo da saúde, como um ator político relevante. Esta é a coisa mais importante, porque é com esta garotada, esta juventude, que nós vamos construir o Brasil do futuro. E a gente espera que seja um Brasil com mais justiça social, com mais democracia e melhor para todos os brasileiros.
enviada por Gustavo Petta
11/08/2007 16:07
Mesa pra dois!
Aqui é o lugar da conversa. Personalidades, políticos, artistas, músico, entre outros, serão entrevistados a cada semana sobre os nossos temas de interesse. Na próxima segunda-feira, teremos publicado aqui uma entrevista exclusiva com o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão. É só conferir!
enviada por Gustavo Petta
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